Pesquisa aponta que 47% dos eleitores preferem não comentar suas escolhas políticas; entre os homens, 22% consideram aceitável insistir para que a companheira mude de voto.
As eleições de 2026 também estão revelando um fenômeno que ultrapassa o debate entre candidatos e partidos: a dificuldade de discutir escolhas políticas dentro de casa. Uma pesquisa inédita mostra que 47% dos brasileiros deixam de comentar em quem pretendem votar para evitar conflitos familiares.
O levantamento, realizado pela Hibou Pesquisas e Insights, ouviu 1.449 eleitores brasileiros entre os dias 1º e 4 de setembro de 2026, exclusivamente para a plataforma Red é de Sangue, voltada à educação e ao enfrentamento da influência misógina nas redes sociais.
Os dados mostram ainda diferenças significativas entre homens e mulheres quando o assunto é autonomia do voto e comportamento de candidatos. 22% dos homens consideram aceitável insistir para que a companheira mude de voto, índice que cai para 10% entre as mulheres.
A pesquisa também aponta que um em cada quatro homens acredita que as mulheres são mais emocionais e que essa característica poderia atrapalhar suas decisões políticas.
Outro dado chama atenção: 67% dos brasileiros já ouviram a afirmação de que “mulher não sabe votar”, enquanto 47% afirmam saber que existem, nas redes sociais, tentativas de deslegitimar ou desestimular a participação feminina nas eleições.
O voto ainda é tratado como assunto de casal
Embora 73% dos entrevistados afirmem que os cônjuges não precisam votar no mesmo candidato, 9% entendem que o casal deve escolher conjuntamente e outros 18% dizem que a decisão depende da situação.
Entre os homens, 16% consideram que o casal deve decidir junto em quem votar, transformando uma escolha individual em uma questão doméstica.
A pressão também aparece quando existe divergência entre os parceiros. 22% dos homens consideram aceitável tentar convencer insistentemente a companheira a mudar de voto, mais que o dobro do índice registrado entre as mulheres, de 10%.
Percepções diferentes sobre o comportamento de homens e mulheres
O levantamento revela ainda uma diferença entre o discurso sobre igualdade e a percepção cotidiana.
Embora 98% dos homens afirmem que homens e mulheres têm a mesma capacidade de avaliar candidatos, apenas 28% deles reconhecem que mulheres são mais frequentemente classificadas como “histéricas”, “emocionais” ou “desequilibradas” quando manifestam opiniões políticas fortes.
Entre as mulheres, a percepção é muito diferente: 70% afirmam que esse tipo de julgamento ocorre com maior frequência contra elas do que contra homens em situações semelhantes.
A mesma diferença aparece quando o assunto são conteúdos misóginos nas redes sociais. 62% das mulheres dizem já ter visto publicações afirmando que mulheres não deveriam votar ou seriam facilmente manipuláveis. Entre os homens, o percentual é de 33%.
Machismo ainda pesa menos que corrupção na decisão de parte dos eleitores
Outro ponto destacado pela pesquisa envolve a influência de declarações e posições machistas na escolha dos candidatos.
Entre os homens, apenas 23% afirmam levar em consideração falas ou posicionamentos machistas de um candidato na hora de votar. Outros 14% dizem considerar esse fator “às vezes”.
Na prática, mais de um terço dos eleitores homens entrevistados admite que o comportamento machista de um candidato pode não impedir, total ou parcialmente, sua escolha.
O contraste é expressivo quando comparado à corrupção: 96% dos brasileiros afirmam que deixariam de votar em um candidato com histórico de corrupção.
Para Ligia Mello, CSO da Hibou e coordenadora da pesquisa, os resultados apontam para a existência de crenças que ainda influenciam a percepção sobre a participação política das mulheres.
“É a misoginia do voto, um conjunto de crenças enraizadas e normalizadas que permeiam movimentos contra o voto feminino nas redes sociais”, afirma.
Debate sobre misoginia ganha espaço nas eleições de 2026
Os resultados colocam em evidência um aspecto menos discutido do processo eleitoral: a autonomia da mulher para escolher seus representantes e a influência de discursos misóginos na política e nas redes sociais.
Para Ana Beatriz Schauff, CEO da Fresh PR e idealizadora da plataforma Red é de Sangue, a misoginia não se limita ao ambiente virtual e também aparece na maneira como as escolhas eleitorais das mulheres são tratadas no cotidiano.
“A misoginia não vive só nas redes. Ela está na forma como o voto da mulher ainda é tratado como assunto coletivo, como algo a ser negociado ou convencido”, afirma.
A plataforma Red é de Sangue reúne conteúdos educativos, orientações para denúncias de discurso de ódio on-line e grupos de reflexão sobre o tema.
O levantamento completo da Hibou Pesquisas e Insights está disponível na plataforma Red é de Sangue.
Foto: Divulgação