O assassinato de uma jovem de 25 anos e de sua filha, de apenas 2 anos, ocorrido no dia 3 de fevereiro de 2026, no bairro Santa Clara, em Mariana (MG), ultrapassa a dimensão de um crime isolado e escancara a complexidade da violência doméstica no Brasil. O principal suspeito, companheiro da vítima e pai da criança, foi preso pela Polícia Militar, e o caso segue sendo investigado como feminicídio e infanticídio.
Mais do que um ato de brutalidade extrema, o episódio revela um padrão recorrente: a violência praticada dentro do espaço doméstico, muitas vezes invisibilizada, silenciosa e marcada por relações de poder desiguais. Trata-se de um fenômeno social que envolve fatores culturais, emocionais, econômicos e institucionais, e que desafia continuamente as políticas públicas existentes.
Entre a tragédia individual e a responsabilidade coletiva
A Prefeitura de Mariana, por meio de nota oficial, lamentou profundamente o ocorrido e prestou solidariedade às famílias das vítimas. No posicionamento, o poder público reconheceu o impacto coletivo da tragédia e reafirmou o compromisso em fortalecer ações de enfrentamento à violência doméstica, com destaque para programas de acolhimento, assistência social e apoio psicológico.
Entretanto, casos como este levantam questionamentos fundamentais: as vítimas tiveram acesso prévio a canais de proteção? Houve sinais de violência anterior? A rede de atendimento, formada por saúde, assistência social, educação e segurança pública, conseguiu atuar de forma preventiva? Essas perguntas evidenciam que o enfrentamento à violência vai além da resposta policial e exige políticas integradas e contínuas.
Violência de gênero e infância: ciclos que se sobrepõem
O crime também evidencia a sobreposição de duas violações graves de direitos humanos. O feminicídio, expressão máxima da violência de gênero, está diretamente ligado a estruturas históricas de desigualdade, controle e naturalização da agressão contra mulheres. Já o infanticídio, neste contexto, revela como crianças se tornam vítimas indiretas e, muitas vezes, diretas, de relações violentas, presas a ciclos que deveriam ser interrompidos pelo Estado e pela sociedade.
Especialistas apontam que crianças expostas à violência doméstica estão mais vulneráveis a traumas profundos, reprodução de comportamentos violentos e rupturas no desenvolvimento emocional, o que reforça a urgência de políticas preventivas desde a primeira infância.
Por que aprofundar o debate é indispensável
Falar sobre feminicídio e violência doméstica não se resume à divulgação de estatísticas ou à comoção momentânea. É um exercício de responsabilidade social que envolve:
Reconhecer a violência como problema estrutural, e não episódico; Avaliar falhas e limites das políticas públicas existentes; Fortalecer redes intersetoriais de proteção, com atuação preventiva e contínua; Estimular a denúncia e o acolhimento, garantindo segurança real às vítimas.
Portanto, essa tragédia em Mariana reforça que o combate à violência doméstica exige mais do que luto e indignação. Exige ação permanente, políticas públicas eficazes e compromisso coletivo para que histórias como esta não se repitam.
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