Em Mariana, representantes das comunidades atingidas pelo rompimento da barragem de Fundão, prefeitos de municípios às margens do Rio Doce e integrantes dos governos municipal e federal se reuniram nesta segunda-feira (31) para discutir e assinar o acordo de cooperação técnica entre o MME e o CORIDOCE além de ações voltadas à prevenção, educação, memória, reparação e desenvolvimento dos territórios atingidos.
O encontro teve como destaque o projeto Escolas Resilientes do Rio Doce, que prevê ações voltadas à preparação das comunidades escolares para situações de emergência e à construção de uma cultura de prevenção. Dentro da iniciativa, também foi anunciado um investimento com o objetivo de climatizar cerca de 600 escolas em Minas Gerais, ampliando as condições de conforto térmico para estudantes e profissionais da educação.
A medida ganha relevância diante do avanço das ondas de calor e dos efeitos da crise climática, que podem comprometer a concentração, o bem-estar e o processo de ensino-aprendizagem. A proposta é que a climatização das unidades escolares seja tratada não como um luxo, mas como parte da garantia de condições adequadas para ensinar e aprender.
O evento contou ainda com uma forte participação de prefeitos de municípios localizados às margens do Rio Doce e integrantes do CORIDOCE (Consórcio Público para Defesa e Revitalização do Rio Doce). A presença dos gestores reforçou o caráter regional da iniciativa e a necessidade de atuação conjunta entre as cidades que compartilham os impactos provocados pelo rompimento da barragem de Fundão e os desafios relacionados à recuperação do Rio Doce.
Comunidade cobra prevenção e acesso efetivo aos recursos
A abertura foi conduzida por Mônica Santos, representante de Bento Rodrigues, que destacou a importância de transformar a experiência vivida pelas comunidades atingidas em conhecimento e prevenção para as novas gerações.
Segundo Mônica, falar em resiliência possui um significado profundo para quem vivenciou diretamente o desastre de 5 de novembro de 2015. Ela defendeu que as escolas sejam espaços de aprendizado sobre prevenção, proteção e participação comunitária, permitindo que crianças e adolescentes conheçam o território onde vivem, sua história, seus riscos e seus direitos.
A representante também chamou atenção para as dificuldades enfrentadas pelas comunidades para acessar programas e recursos destinados à reparação. Para ela, critérios complexos, burocracia e excesso de documentação acabam criando obstáculos justamente para aqueles que mais necessitam das políticas públicas.
Mônica ressaltou que os recursos da reparação precisam ser tratados com responsabilidade e respeito à memória das vítimas. Ao lembrar as vidas perdidas na tragédia, defendeu que as políticas públicas sejam construídas com a participação efetiva das comunidades.
“Dinheiro nenhum devolve uma vida, mas uma política pública construída com as comunidades pode garantir que vidas não sejam novamente perdidas.”
Climatização é apontada como investimento em educação
Na sequência, o prefeito de Mariana, Juliano Duarte, destacou a importância dos investimentos destinados à educação e das iniciativas que buscam melhorar as condições oferecidas aos estudantes.
A climatização das escolas ganhou destaque durante a manifestação. A instalação de equipamentos de ar-condicionado em cerca de 600 unidades escolares de Minas Gerais foi apresentada como uma medida capaz de enfrentar os efeitos das temperaturas elevadas e contribuir diretamente para a qualidade do ambiente escolar.
A avaliação é de que o conforto térmico influencia a capacidade de concentração e a permanência dos estudantes em sala de aula, além de representar uma melhoria nas condições de trabalho dos profissionais da educação.
Nesse sentido, a climatização passa a ser encarada como uma medida de dignidade e qualidade educacional, especialmente diante do cenário de eventos climáticos extremos cada vez mais frequentes.
Juliano Duarte também ressaltou a importância da articulação regional e da união entre os municípios para que os investimentos destinados à reparação e ao desenvolvimento produzam resultados concretos para as populações do território.
Patrimônio histórico também entra na agenda
Representando o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), o representante do órgão destacou a retomada de investimentos federais na preservação do patrimônio histórico e cultural de Mariana.
Segundo ele, o município conta com dezenas de ações em andamento ou previstas, que somam mais de R$ 260 milhões viabilizados por meio do Novo PAC. A expectativa é avançar na recuperação de espaços históricos e possibilitar a reabertura de igrejas atualmente fechadas para obras.
O representante do Iphan também destacou a possibilidade de integração entre os setores de mineração, energia e cultura, especialmente por meio de mecanismos como a Lei Rouanet.
Ministro cobra responsabilidade das mineradoras
Encerrando a sequência de manifestações, o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, fez um discurso com duração longa, marcado por emoção ao abordar a relação entre mineração, desenvolvimento econômico, responsabilidade social e reparação.
Silveira afirmou que o setor mineral possui papel relevante para a economia brasileira, mas defendeu que as empresas devem assumir responsabilidades proporcionais aos impactos provocados pela atividade nos territórios onde atuam.
Ao mencionar Mariana e Brumadinho, o ministro afirmou que tragédias como as provocadas pelos rompimentos de barragens não podem voltar a acontecer e cobrou das mineradoras maior compromisso com as comunidades.
Para Silveira, a riqueza mineral retirada dos municípios não é renovável e, por isso, as empresas precisam deixar legados concretos e alternativas econômicas para as cidades. Ele defendeu planejamento para que os municípios tenham condições de se desenvolver mesmo quando a atividade minerária perder força.
CORIDOCE reforça articulação regional
A participação dos prefeitos integrantes do CORIDOCE reforçou a dimensão regional do encontro. Os gestores dos municípios localizados às margens do Rio Doce têm papel estratégico na construção de políticas conjuntas de revitalização, desenvolvimento e defesa dos interesses das populações atingidas.
O encontro em Mariana reuniu, dessa forma, diferentes frentes de atuação: educação, prevenção de desastres, climatização das escolas, preservação do patrimônio, reparação e desenvolvimento regional.
A proposta das Escolas Resilientes do Rio Doce busca aproximar esses temas da comunidade escolar, permitindo que crianças e adolescentes conheçam o território onde vivem, compreendam seus riscos e participem da construção de uma cultura permanente de prevenção.
Mais do que reconstruir estruturas, a iniciativa coloca em debate a necessidade de preparar as novas gerações para um futuro mais seguro, preservando a memória do que aconteceu e transformando as experiências do passado em instrumentos de prevenção.
Por Cassiano Aguilar
Foto: Cassiano Aguilar / Panfletu´s