A guerra no Irã, que entrou em sua quinta semana na segunda-feira (30), tem ampliado sua repercussão no Brasil, especialmente nas redes sociais. Um monitoramento realizado pelo Instituto Democracia em Xeque, entre os dias 19 e 25 de março, revela que o aumento no preço dos combustíveis é a principal preocupação dos brasileiros diante da crise internacional do petróleo.
De acordo com o levantamento, 63% das publicações analisadas sobre o tema focaram diretamente nos valores dos combustíveis nos postos. O cenário reflete a instabilidade do mercado global após a escalada do conflito, iniciado pelo governo norte-americano de Donald Trump.
Na abertura do mercado asiático no domingo (29), o petróleo Brent — referência internacional — ultrapassou os US$ 115 por barril, atingindo o maior patamar desde julho de 2022. Mesmo com o anúncio de uma pausa nos ataques às instalações iranianas até 10 de abril, o mercado segue pressionado. Um dos fatores é o fechamento do Estreito de Ormuz pelo Irã, rota estratégica por onde passa cerca de 20% do petróleo mundial.
Segundo a pesquisadora do Instituto Democracia em Xeque, Luana Homma, o tema permanece em evidência por seu impacto direto no custo de vida. “Mesmo com uma leve queda no volume de publicações nos últimos dias, o assunto continua relevante, especialmente por afetar diretamente o cotidiano da população”, explica.
Desinformação cresce com a crise
O monitoramento também identificou aumento na circulação de conteúdos desinformativos relacionados ao tema. Embora ainda com menor volume, essas publicações distorcem declarações e dados para reforçar narrativas políticas.
Entre os casos analisados, uma postagem viral afirmou que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva teria sugerido que brasileiros “andassem a pé” devido ao preço dos combustíveis. A declaração, no entanto, foi retirada de contexto: tratava-se de uma fala sobre saúde e incentivo à atividade física, feita durante evento no Rio de Janeiro.
Outra informação falsa dizia respeito ao suposto desvio de navios com diesel destinados ao Brasil. Apesar de redirecionamentos no mercado internacional terem sido confirmados, entidades do setor afirmam que a prática é comum e não indica risco de desabastecimento no país.
Para a diretora de Projetos do instituto, Ana Julia Bernardi, há uma estratégia recorrente de manipulação de informações. “A descontextualização de falas políticas tem sido usada para gerar indignação e ampliar críticas ao governo, especialmente em temas sensíveis como o custo de vida”, afirma.
Debate impulsionado por mídia e influenciadores
O estudo aponta que o debate foi impulsionado por veículos de imprensa, perfis institucionais e influenciadores digitais, principalmente em plataformas como Instagram e YouTube. Entre os principais atores estão o perfil oficial do presidente Lula e veículos como Metrópoles, Jovem Pan News, InfoMoney e A Tarde.
O relatório destaca ainda um ambiente híbrido de informação, em que conteúdos jornalísticos se misturam com opiniões e narrativas de nicho, ampliando o alcance do tema.
Greve dos caminhoneiros e medidas do governo
Os dias 19 e 20 de março concentraram o maior volume de interações nas redes, impulsionados pela expectativa de uma possível greve dos caminhoneiros, que acabou não se concretizando. Com a redução do risco de paralisação, houve queda no engajamento nos dias seguintes.
Para conter os impactos da alta dos combustíveis, o governo federal adotou medidas como a edição de uma Medida Provisória e resoluções da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), que reforçam a obrigatoriedade do pagamento do piso mínimo do frete. Empresas que descumprirem a norma podem sofrer sanções, incluindo a perda do registro para transporte de cargas.
Além disso, foi zerada a cobrança de tributos federais PIS e Cofins sobre o diesel. O governo também negocia com estados alternativas para subsidiar o combustível importado.
Cenário segue incerto
Apesar das tentativas de estabilização, o conflito no Oriente Médio segue sem previsão de término. Há risco de uma escalada militar, com possibilidade de invasão terrestre do território iraniano pelos Estados Unidos, que já ampliaram sua presença militar na região.
Com impactos diretos no mercado global e no custo de vida, a guerra no Irã continua sendo um dos principais temas de atenção tanto no cenário internacional quanto nas discussões digitais no Brasil.
Foto: Divulgação