Mesmo com o atrativo de ter uma taxa de juros reduzida, especialista do FGVCemif aconselha cautela na contratação do programa.
O programa “Crédito do Trabalhador”, que oferece empréstimo consignado voltado para empregados com carteira assinada do setor privado, incluindo os domésticos, trabalhadores rurais e contratados por microempreendedores individuais (MEIs), entrou em vigor na última sexta-feira (21/03). A opção terá uma taxa de juros reduzida e desconto direto na folha de pagamento.
Apesar de atrativa, o coordenador do Centro de Estudos de Microfinanças e Inclusão Financeira da FGV (FGVCemif), Lauro Gonzalez, ressalta que “é preciso haver cautela, tendo em vista o já elevado grau de comprometimento de renda da população para o pagamento de dívidas”.
Em 2023, a intuição realizou o levantamento a Evolução do Crédito para Pessoas Físicas no Brasil e suas Distorções que constou que o crédito para pessoa física voltado para consumo tem crescido fortemente (volume como percentual do Produto Interno Bruto (PIB), participação na dívida total das famílias, etc).
Além disso, o estudo mostrou que juros cobrados em diversas modalidades de crédito para pessoa física no Brasil são bastante altos quando comparados a outros países, o que ajuda a explicar o elevado grau de comprometimento de renda das famílias para o pagamento de dívidas e os mais de 72 milhões de negativados.
Alternativas
Para a instituição, em vez do consignado, seria recomendável a expansão de outras modalidades de crédito, com destaque para o crédito imobiliário, o crédito para microempresas e o microcrédito.
E diante da provável expansão do consignado, uma das formas de mitigar o superendividamento seria uma maior regulação da oferta de cartão de crédito, por exemplo, estabelecendo mais exigências de provisionamento de capital.
Com esse cenário, o núcleo de estudos do superendividamento do FGVCemif elencou alguns pontos de atenção sobre o novo consignado, entre eles, o uso do crédito para pagar outras dívidas. O problema observado é que muitas pessoas, embora utilizem essa modalidade de crédito para quitar dívidas anteriores, muitas vezes, não ocorre a redução de endividamento.
Além disso, um novo contrato via consignado, por envolver um prazo mais longo, tende a aumentar a chance de utilização de outras modalidades de crédito em conjunto com o próprio consignado, o que pode contribuir para o endividamento.
Outro ponto de atenção é o maior assédio de instituições oferecendo crédito, na esteira do anúncio do governo, aumentado a chance de contratações de crédito predatório.
Com o novo programa, mais de 80 bancos e instituições financeiras poderão ter acesso ao perfil de trabalhadores com carteira assinada por meio do eSocial. A partir de 25 de abril, todos os bancos poderão ofertar o crédito em suas plataformas digitais.
De acordo com o Ministério do Trabalho e Emprego, mais de 40 milhões de trabalhadores fizeram a simulação do novo crédito consignado de sexta-feira (21/03) até as 18h do último domingo (23/03). Ao todo, as simulações somaram 40.180.384, com o potencial de oferecer crédito menos caro a até 47 milhões de pessoas.
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