Atrasos frequentes, veículos sem condições adequadas de higiene e manutenção, ausência de cintos de segurança e problemas que comprometem a segurança dos passageiros. Essas foram algumas das reclamações apresentadas por usuários da Viação Pássaro Verde durante audiência pública realizada nesta quarta-feira (28/10), na Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG).
A reunião foi promovida pela Comissão de Assuntos Municipais e Regionalização, a pedido do vice-presidente do colegiado, deputado Leleco Pimentel (PT), e reuniu passageiros, representantes da empresa, órgãos estaduais e vereadores de municípios atendidos pela concessionária, que opera linhas intermunicipais em diferentes regiões de Minas Gerais.
Entre os principais relatos está o de passageiros que enfrentam atrasos de até duas horas, além de ônibus sujos, com mau cheiro, pneus desgastados e equipamentos sem funcionamento adequado. Também foram mencionados casos de venda de passagens acima da capacidade de assentos, crianças viajando no chão e falta de climatização.
O advogado Ezequiel Geraldo de Magela afirmou que os atrasos se tornaram recorrentes e apresentou um levantamento que aponta aproximadamente 200 reclamações de passageiros nos 15 dias anteriores à audiência. Entre as linhas mencionadas estão trajetos que atendem municípios da região da Serra do Caraça, como Catas Altas e Santa Bárbara.
Outro passageiro, o advogado Rogério Fernandes, relatou que enfrentou dificuldades em viagens entre Ouro Preto e Belo Horizonte, mas observou uma melhora recente no serviço, com a utilização de veículos novos e maior pontualidade. Na avaliação dele, as mudanças podem estar relacionadas à mobilização dos usuários e à realização da audiência pública.
Fernandes destacou um episódio ocorrido em 19 de junho, quando aguardou 50 minutos além do horário previsto para embarcar em um ônibus que classificou como sucateado. Durante o percurso, na Serra de Itabirito, o compartimento de bagagens se abriu e malas se espalharam pela rodovia, aumentando o risco de acidentes em um trecho considerado perigoso.
Perda de confiança e preocupação com a segurança
A passageira Sidnéa Francisca dos Santos também manifestou insatisfação com a qualidade do serviço. Segundo ela, a relação de confiança construída ao longo de décadas com a empresa vem sendo comprometida pelas condições dos veículos, atrasos e problemas mecânicos durante as viagens.
Sidnéa relatou ainda mudanças na operação das linhas, com a redução de horários diretos e a utilização de ônibus que já estão em circulação, obrigando passageiros a embarcar em pontos localizados fora das rodoviárias. Ela utiliza o serviço em Veloso, distrito de Ouro Preto, na linha com destino a Minas Novas, no Vale do Jequitinhonha.
A passageira também recordou o acidente ocorrido em 24 de agosto, quando um ônibus da empresa, que fazia o trajeto de Minas Novas para Belo Horizonte, sofreu um acidente e pegou fogo. Na ocasião, o motorista conseguiu retirar os passageiros do veículo. Diante dos riscos, ela defendeu que viagens por trechos considerados perigosos contem com dois condutores.
As reclamações foram reforçadas por representantes do poder público municipal. O vereador João Ronaldo Gomes, de Catas Altas, avaliou que o crescimento do transporte clandestino também está relacionado às dificuldades das empresas regulares em atender satisfatoriamente à população.
Já Aida Anacleto, presidente do Conselho Municipal de Saúde de Mariana, chamou a atenção para a vulnerabilidade dos passageiros, especialmente das mulheres, quando os ônibus apresentam defeitos e precisam parar em pontos isolados das rodovias. Ela defendeu o retorno dos auxiliares de viagem e cobrou maior fiscalização do serviço.
Empresa reconhece problemas e anuncia renovação da frota
Durante a audiência, a procuradora da Viação Pássaro Verde, Rejane Suely de Sena Luberiaga, reconheceu as falhas apontadas pelos usuários e afirmou que a empresa pretende recuperar o padrão de qualidade que, segundo ela, caracterizava os serviços há aproximadamente oito anos.
A representante informou que a idade média da frota, que anteriormente era de três anos, atualmente chega a dez anos. Ela reconheceu a responsabilidade da concessionária pelos problemas, mas citou a pandemia e a concorrência com o transporte clandestino como fatores que agravaram a situação financeira e operacional da empresa.
Segundo Rejane Suely, o transporte regular está submetido a uma série de exigências e custos que não são observados pelos operadores clandestinos. Na avaliação dela, o enfrentamento desse tipo de transporte é necessário para que as empresas concessionárias tenham condições de investir na renovação dos veículos.
A procuradora informou que a Pássaro Verde possui aproximadamente 100 ônibus e que quatro veículos zero-quilômetro foram recentemente incorporados à frota responsável pelo atendimento à região de Ouro Preto. Outros nove veículos deverão ser remanejados de empresas do mesmo grupo econômico.
Além disso, anunciou que mais dez ônibus estão em processo de encarroçamento para futura incorporação à frota. Rejane também esclareceu que a empresa não está em recuperação judicial.
Sobre os atrasos nas viagens, a representante atribuiu parte dos transtornos às condições de tráfego da BR-356, que, segundo ela, passou a receber maior fluxo de veículos em razão de motoristas que utilizam a rodovia como alternativa para evitar o pagamento de pedágios.
DER-MG confirma problemas e apresenta números da fiscalização
O gerente de Fiscalização de Transporte e Trânsito do Departamento de Estradas de Rodagem de Minas Gerais (DER-MG), Eriênio Jaderson de Souza, reconheceu a gravidade da situação do transporte intermunicipal e afirmou que o sistema enfrenta um cenário de dificuldades.
Segundo ele, o órgão intensificou as ações de combate ao transporte clandestino, mas o crescimento dessa modalidade tem ocorrido em ritmo superior à capacidade de fiscalização.
Em relação à Viação Pássaro Verde, Eriênio informou que, até 20 de outubro de 2026, haviam sido registrados 384 autos de infração contra a empresa somente neste ano.
O representante da Secretaria de Estado de Infraestrutura e Mobilidade (Seinfra), Diovane de Sá Leopoldino, também destacou os desafios da gestão do transporte público em Minas Gerais, considerando a extensão territorial e os 853 municípios do Estado.
Superintendente de Transporte Coletivo Intermunicipal e Metropolitano, ele defendeu a atualização das normas que regulamentam o sistema de concessões, cujo regulamento vigente, segundo informou, remonta a 2007.
Comissão fará visita à garagem da empresa em novembro
Como encaminhamento da audiência, o deputado Leleco Pimentel anunciou que a Comissão de Assuntos Municipais e Regionalização realizará, no dia 9 de novembro, uma visita à garagem da Viação Pássaro Verde. A iniciativa, aprovada durante a reunião, tem o objetivo de verificar as instalações, as condições de manutenção e a situação da frota.
Uma nova audiência pública deverá ser realizada posteriormente para avaliar as providências adotadas pela empresa e pelos órgãos responsáveis pela fiscalização.
Leleco Pimentel defendeu o fortalecimento do transporte público e das concessões, além da criação de mecanismos de financiamento por meio de fundos públicos nas três esferas de governo. O parlamentar também destacou que a mobilidade é um direito da população e que os serviços precisam atender às necessidades dos usuários.
O deputado Dalmo Ribeiro (PSDB) considerou legítimas as reivindicações apresentadas pelos passageiros e reforçou a necessidade de melhorias na qualidade do transporte oferecido pela concessionária.
A audiência evidenciou a distância entre as expectativas dos usuários e as condições relatadas na prestação do serviço. Com a visita técnica marcada para novembro e a promessa de renovação da frota, passageiros aguardam medidas concretas que garantam pontualidade, conforto, higiene e, principalmente, segurança nas viagens intermunicipais.
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