Uma iniciativa desenvolvida em Mariana, na Região dos Inconfidentes, conquistou reconhecimento nacional por sua atuação no enfrentamento à violência doméstica e familiar contra mulheres e meninas. O projeto LALIA – Laboratório de Linguagens Afetivas: Restaurando Linguagens Afetivas com Homens que Cumprem a Lei Maria da Penha está entre os vencedores da edição 2026 do Prêmio CNJ Juíza Viviane Vieira do Amaral, concedido pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ).
Desenvolvido por meio de uma parceria entre a Academia de Letras, Artes e Ciências Brasil (Alacib-Mariana) e o Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG), o projeto propõe uma abordagem de reeducação de homens submetidos às medidas previstas na Lei Maria da Penha. A iniciativa utiliza a arte como instrumento complementar para estimular a reflexão sobre comportamentos, relações interpessoais, masculinidade e formas não violentas de expressão.
A solenidade de premiação foi realizada em 23 de outubro de 2026, na sede do CNJ, em Brasília. A idealizadora do projeto, a professora, artista e arteterapeuta Andreia Donadon Leal, recebeu a premiação das mãos dos conselheiros do CNJ Jaceguara Dantas da Silva e Fábio Esteves.
Arte como instrumento de reflexão e mudança
O diferencial do LALIA está na utilização de atividades de Arteterapia, poesia, trabalhos manuais e outras expressões artísticas como ferramentas para incentivar a reflexão e a construção de novas formas de comunicação e convivência.
A proposta busca oferecer aos participantes oportunidades de reconhecer comportamentos, questionar padrões e desenvolver alternativas à expressão da violência. Entre as atividades realizadas estão trabalhos com barro e produção poética, que permitem explorar sentimentos e estimular formas não violentas de expressão.
Segundo Andreia Donadon Leal, integrante da coordenação do projeto, a Arteterapia contribui para ampliar as possibilidades de reflexão sobre a educação masculina e os padrões de comportamento socialmente construídos.
“A Arteterapia configura seu diferencial, uma vez que proporciona reflexões acerca da educação masculina e abre possibilidades para a compreensão de que delicadeza não diminui a masculinidade”, afirma.
A iniciativa aposta, assim, na educação e nas linguagens artísticas como recursos complementares ao trabalho de reeducação, sem perder de vista a necessidade de prevenir a violência e promover relações baseadas no respeito.
Equipe reúne profissionais de diferentes áreas
A coordenação do LALIA é composta por profissionais com experiência em arte, educação, psicologia, direito e história. A equipe reúne Andreia Donadon Leal, artista, professora e arteterapeuta; José Benedito Donadon Leal, poeta e professor emérito da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP); Ludmilla Camilloto, psicóloga, advogada e professora da UFOP; Saulo Camêllo, advogado; e Lucas Machado, historiador, mestrando da UFOP e artista visual.
A atuação interdisciplinar busca ampliar as possibilidades de abordagem da violência de gênero, articulando diferentes áreas do conhecimento para estimular a reflexão sobre atitudes, responsabilidades e formas de relacionamento.
Prêmio reconhece iniciativas de enfrentamento à violência contra mulheres
O Prêmio CNJ Juíza Viviane Vieira do Amaral – Proteção às Mulheres Vítimas de Violência Doméstica e Familiar tem como objetivo reconhecer projetos, programas, ações, produções científicas e trabalhos acadêmicos que contribuam para a prevenção e o enfrentamento da violência doméstica e familiar contra mulheres e meninas.
A premiação também busca dar visibilidade a boas práticas e soluções inovadoras que possam ser replicadas, além de incentivar o aprimoramento da atuação do Sistema de Justiça e preservar a memória da juíza Viviane Vieira do Amaral.
A iniciativa contempla seis categorias: tribunais; magistrados(as); atores do Sistema de Justiça Criminal; organizações não governamentais; mídia; e produção acadêmica.
O reconhecimento nacional coloca em evidência uma experiência desenvolvida em Mariana que procura contribuir para o enfrentamento da violência de gênero por meio da reeducação, da reflexão crítica e da construção de novas formas de expressão e convivência.
A conquista também amplia a visibilidade do trabalho realizado pela Alacib-Mariana em parceria com o TJMG e reforça o debate sobre estratégias complementares de prevenção à violência doméstica, incluindo ações voltadas à mudança de comportamentos de homens submetidos às medidas previstas na Lei Maria da Penha.
Por Cassiano Aguilar
Foto: J.B.Donadon-Leal / Divulgação