A estratégia de estimular a economia por meio da ampliação do consumo enfrenta sinais de esgotamento no país. Com as famílias cada vez mais comprometidas com dívidas e despesas financeiras, o ritmo de crescimento das compras perde força, levantando questionamentos sobre a sustentabilidade de um modelo que depende da expansão da demanda sem avanços equivalentes na produtividade e na capacidade de produção.
Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) citados no debate econômico indicam que o consumo das famílias avançou, em média, 3,3% ao ano entre 2021 e 2025, com crescimento de 5,1% em 2024. Em 2025, porém, a expansão teria recuado para 1,3%. As projeções mencionadas para 2026 e 2027 apontam continuidade da desaceleração, com altas de aproximadamente 1% e abaixo desse patamar, respectivamente.
Um dos fatores que ajudam a explicar esse movimento é o endividamento das famílias. O crédito destinado às pessoas físicas continuou crescendo, enquanto uma parcela significativa da renda passou a ser direcionada ao pagamento de dívidas. Dados atribuídos ao Banco Central indicam que o endividamento alcançou 49,9% da renda acumulada em 12 meses até julho de 2026. Já o comprometimento da renda com juros e amortizações chegou a 28,7%.
A situação também aparece nas pesquisas de consumo. Levantamento da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) apontou que mais de 80% das famílias brasileiras possuíam algum tipo de dívida. Embora o endividamento não represente necessariamente inadimplência, o volume elevado reduz a margem disponível para novas compras e aumenta a vulnerabilidade dos consumidores diante de imprevistos e do custo do crédito.
Crescimento impulsionado pelo consumo tem limites
O cenário reacende o debate sobre os efeitos da política econômica do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). A ampliação de despesas públicas e de transferências de renda contribui para sustentar o consumo no curto prazo, mas seus resultados dependem também de fatores como produtividade, investimento, geração de empregos e capacidade de expansão da oferta.
Críticos da estratégia adotada pelo governo apontam semelhanças com dificuldades enfrentadas em períodos anteriores, especialmente durante o governo Dilma Rousseff. A avaliação é que o estímulo à demanda, quando não acompanhado de crescimento produtivo e equilíbrio das contas públicas, pode intensificar pressões inflacionárias e dificultar a redução dos juros.
Esse diagnóstico, contudo, exige considerar o conjunto de fatores que influencia a economia. Inflação, juros, consumo e crescimento não dependem exclusivamente dos gastos federais: também são afetados pelas decisões do Banco Central, pelas condições internacionais, pelo mercado de trabalho e pelo comportamento dos investimentos privados.
Ainda assim, a trajetória das despesas públicas permanece no centro da discussão. O aumento dos gastos acima da inflação, quando não acompanhado de receitas sustentáveis e ganhos de eficiência, pode ampliar as incertezas fiscais e dificultar a condução da política monetária.
Juros elevados pressionam famílias e empresas
O custo do crédito é um dos principais canais pelos quais o endividamento afeta a atividade econômica. Quando uma parcela maior da renda é destinada ao pagamento de empréstimos, financiamentos e juros, sobra menos dinheiro para o consumo. Ao mesmo tempo, empresas enfrentam custos mais altos para investir, ampliar a produção e contratar trabalhadores.
Esse processo pode criar um ciclo de desaceleração: famílias reduzem compras, empresas vendem menos e adiam investimentos, enquanto o crescimento econômico perde força. Caso as pressões inflacionárias e as incertezas fiscais persistam, o ambiente pode dificultar uma redução mais consistente dos juros.
As projeções econômicas citadas no debate também sinalizam perda de ritmo. O relatório Focus, do Banco Central, reúne estimativas do mercado para indicadores como o Produto Interno Bruto (PIB), a inflação e a taxa básica de juros. Já as projeções do Fundo Monetário Internacional (FMI) oferecem outra referência para avaliar as perspectivas da economia brasileira.
As estimativas mencionadas apontam crescimento mais moderado em 2026 e 2027. Ainda que as instituições apresentem números diferentes, a desaceleração projetada reforça a importância de acompanhar a evolução do consumo, dos investimentos, do mercado de trabalho e das contas públicas. Previsões, entretanto, podem mudar diante de novas informações e decisões econômicas.
Medidas de alívio financeiro e o desafio fiscal
O governo federal também anunciou iniciativas de apoio a pequenos empreendedores, incluindo propostas de renegociação ou perdão de dívidas para microempreendedores individuais (MEIs). Medidas dessa natureza podem aliviar o orçamento de quem enfrenta dificuldades financeiras e ajudar a preservar negócios e empregos.
O desafio está em conciliar esse alívio imediato com a sustentabilidade das contas públicas. Programas de renegociação podem ser úteis quando têm regras claras, alcance definido e mecanismos de acompanhamento. Entretanto, seus efeitos de longo prazo dependem da forma de financiamento, dos custos fiscais e da capacidade de evitar que novas dívidas voltem a comprometer a renda dos beneficiários.
Em um ano eleitoral, decisões que envolvem gastos, benefícios e renegociação de débitos ganham relevância econômica e política. O debate não deve se limitar à concessão de novos auxílios, mas também avaliar como essas iniciativas serão financiadas e quais resultados produzirão sobre a atividade econômica.
Ajuste fiscal e produtividade no centro do debate
Uma desaceleração econômica não significa, por si só, que o país esteja entrando em recessão. O risco de uma perda de dinamismo mais prolongada, porém, aumenta quando o consumo perde força, o crédito permanece caro e os investimentos não avançam de maneira suficiente para compensar a redução da demanda.
A experiência brasileira demonstra que a expansão do consumo, isoladamente, não garante crescimento sustentável. Para consolidar uma trajetória duradoura, o país precisa combinar políticas sociais fiscalmente responsáveis, previsibilidade econômica, investimento produtivo, qualificação profissional e ganhos de produtividade.
O próximo governo, independentemente de quem vença a eleição presidencial, terá de enfrentar o desafio de conciliar as demandas sociais com a capacidade de financiamento do Estado. Isso envolve decisões sobre despesas, receitas, eficiência do gasto público e condições para estimular investimentos.
O ponto central é que o consumo das famílias não pode funcionar indefinidamente como principal motor da economia quando o orçamento doméstico está pressionado por dívidas. Sem avanços na produtividade, confiança para investir e equilíbrio fiscal, o país corre o risco de conviver com crescimento mais lento, crédito caro e menor capacidade de geração de renda.
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