A misoginia na internet tem assumido novas formas de disseminação, utilizando principalmente memes, montagens e conteúdos apresentados como humorísticos para propagar discursos de ódio contra as mulheres. É o que revela um levantamento realizado pelo Laboratório de Humanidades Digitais da Universidade Federal da Bahia (UFBA), que analisou 47.018 imagens compartilhadas em grupos e canais do Telegram entre novembro de 2020 e maio de 2026.
De acordo com a pesquisa, mais de 90% das imagens classificadas como misóginas não continham conteúdo sexual explícito, demonstrando que a violência de gênero no ambiente digital tem migrado para formatos aparentemente inofensivos, mas carregados de estereótipos, discriminação e incentivo à hostilidade contra as mulheres.
Ao todo, os pesquisadores identificaram 2.896 imagens com conteúdo misógino, o equivalente a 6,2% do material analisado. A misoginia foi a categoria de risco mais recorrente no estudo, superando conteúdos relacionados à violência (3%), nudez (2,1%) e material sexualmente explícito (1,2%).
Segundo o levantamento, cerca de 65,2% das imagens classificadas como misóginas apresentavam intensidade considerada alta ou extrema.
Humor como estratégia de disseminação
O coordenador do Laboratório de Humanidades Digitais da UFBA, o cientista social computacional Leonardo Nascimento, afirma que os grupos utilizam o humor como mecanismo para ampliar o alcance das mensagens e minimizar a percepção de violência.
"Eles procuram mascarar a violência como brincadeira. É uma estratégia extremamente recorrente em grupos radicalizados."
O pesquisador destaca que o conteúdo vai além da pornografia e revela uma postura de hostilidade sistemática em relação às mulheres.
"Existe uma relação de profundo desprezo pelo feminino e pela própria mulher. Muitos desses memes são extremamente cruéis e até a sexualidade feminina é tratada de forma negativa."
As imagens analisadas trazem ofensas direcionadas às mulheres, além da utilização de termos recorrentes em comunidades conhecidas como "machosfera". O conteúdo também ridiculariza o feminismo, questiona legislações de proteção às mulheres, como a Lei Maria da Penha, defende a exclusão feminina de espaços de poder e, em alguns casos, incentiva a violência física.
Telegram funciona como centro de distribuição
O estudo analisou conteúdos publicados em 1.417 grupos e canais do Telegram, reunindo um universo aproximado de 3,9 milhões de mensagens.
Segundo os pesquisadores, a plataforma atua como um importante centro de distribuição para outras redes sociais. Entre os links compartilhados nesses grupos, 44% direcionavam para o YouTube, 18% para outros grupos do Telegram, 16% para o Instagram e 14% para o X (antigo Twitter).
A pesquisa aponta que o YouTube concentra vídeos de influenciadores ligados à chamada machosfera e conteúdos antifeministas, enquanto o Instagram é utilizado para ampliar o alcance dessas narrativas por meio de vídeos curtos.
Inteligência artificial e exposição de mulheres reais preocupam pesquisadores
Outro aspecto identificado foi o crescimento da utilização de imagens produzidas por inteligência artificial e da divulgação de fotografias de mulheres reais sem autorização.
Segundo Leonardo Nascimento, ex-companheiros, conhecidos ou outras pessoas capturam imagens publicadas nas redes sociais e as compartilham em grupos privados com o objetivo de ridicularizar e humilhar essas mulheres.
"Muitas vezes essas mulheres sequer sabem que suas imagens estão circulando nesses espaços. Esse tipo de conteúdo tem preocupado bastante."
Crescimento acelerado
Os pesquisadores observaram um aumento significativo da circulação desse tipo de material nos últimos anos. Quase metade das imagens analisadas foi publicada em 2025, enquanto 23,5% correspondem apenas ao primeiro semestre de 2026. Isso significa que 70,5% de todo o conteúdo identificado foi compartilhado nos dois anos mais recentes.
Embora o levantamento indique essa aceleração, os pesquisadores afirmam que ainda não é possível estabelecer uma relação direta com o processo eleitoral, apesar de estudos anteriores demonstrarem que períodos de eleição costumam registrar crescimento na circulação de discursos de ódio e conteúdos radicalizados.
Especialistas alertam para a normalização da violência
Para a jurista Alice Bianchini, presidente da Associação Brasileira de Mulheres de Carreiras Jurídicas (ABMCJ) e integrante do Consórcio Lei Maria da Penha, a misoginia passou a utilizar linguagens mais sofisticadas, tornando mais difícil sua identificação pelas plataformas digitais.
Segundo ela, o fato de o conteúdo ser apresentado como humor não elimina sua gravidade.
"Quando uma publicação desumaniza mulheres, reforça estereótipos discriminatórios ou estimula hostilidade e violência contra elas, deixa de ser uma simples piada e passa a integrar um discurso de ódio."
A especialista alerta ainda que a exposição contínua de crianças, adolescentes e jovens a esse tipo de conteúdo contribui para a naturalização da violência de gênero.
"Toda violência contra as mulheres começa pela negação de sua humanidade. A misoginia é justamente o discurso que torna essa negação socialmente aceitável."
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