Processo de tombamento individual pelo Iphan destaca a importância histórica e arquitetônica do teatro mais antigo em funcionamento das Américas.
Um dos maiores símbolos da história e da cultura brasileira, a Casa da Ópera – Teatro Municipal de Ouro Preto, está prestes a alcançar um novo patamar de reconhecimento. O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) incluiu na pauta da 113ª Reunião do Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural a análise do pedido de tombamento individual do imóvel, que poderá passar a integrar os Livros do Tombo Histórico e de Belas Artes.
Inaugurado em junho de 1770, ainda durante o período colonial, o espaço é considerado o teatro em funcionamento mais antigo das Américas. Construído por determinação do então governador da Capitania de Minas Gerais, Conde de Valadares, o edifício nasceu como a Casa da Ópera de Vila Rica, em homenagem ao rei de Portugal, Dom José I.
Ao longo de seus quase 255 anos de história, o teatro consolidou-se como um dos mais importantes patrimônios culturais do país. O local recebeu apresentações marcantes, como uma opereta de autoria do inconfidente Cláudio Manuel da Costa, além de ter sido um dos primeiros espaços das Américas a permitir a presença de mulheres no palco, rompendo uma tradição da época em que personagens femininas eram interpretadas por homens.
A trajetória da Casa da Ópera também foi marcada pela passagem de importantes personalidades da história brasileira, entre elas o imperador Dom Pedro II, o poeta Alvarenga Peixoto e o ex-presidente Juscelino Kubitschek, que promoveu no local um festival de arte em 1955.
Embora o edifício já esteja protegido por integrar o Conjunto Arquitetônico e Urbanístico de Ouro Preto, tombado pelo Iphan desde 1938, o novo processo busca reconhecer os valores históricos, artísticos, arquitetônicos e simbólicos próprios do imóvel, que extrapolam a proteção conferida ao conjunto urbano.
Restauração preservou a identidade histórica do monumento
A valorização da Casa da Ópera ganhou novo impulso com a restauração concluída em dezembro de 2023. Após pouco mais de um ano de obras e investimentos de aproximadamente R$ 750 mil, viabilizados pelo Fundo Municipal de Patrimônio e pela Prefeitura de Ouro Preto, o espaço foi reaberto ao público com suas principais características originais preservadas.
Os trabalhos incluíram a recuperação das estruturas de alvenaria, substituição completa do telhado, revitalização das pinturas internas e externas, revisão das instalações elétricas, tratamento contra cupins e adequações no sistema de prevenção e combate a incêndios.
Entre as intervenções mais complexas esteve a substituição de duas grandes vigas estruturais de madeira, conhecidas como "espigões", com cerca de dez metros de comprimento cada. O material precisou ser adquirido no Pará para garantir a fidelidade às características construtivas originais, evitando alterações que comprometessem a autenticidade do monumento.
A restauração também contemplou a recuperação da pintura artística da boca de cena, assinada por Marcelino José de Mesquita, além das cortinas, bambolinas e do tradicional sistema de movimentação cênica, elementos que fazem parte da identidade do teatro.
Para quem acompanha diariamente a história do espaço, o processo representa a continuidade de um legado cultural construído ao longo de gerações. O músico e técnico de iluminação Vicente Gomes, funcionário mais antigo da Casa da Ópera, resume a relação afetiva criada com o local.
"Trabalho aqui há 43 anos e, para ser bem sincero, não saberia dizer se passei mais tempo da minha vida aqui ou na minha própria casa."
Caso o tombamento individual seja aprovado pelo Conselho Consultivo do Iphan, a Casa da Ópera reforçará ainda mais seu papel como referência do patrimônio histórico nacional, ampliando a proteção de um dos mais importantes símbolos da cultura, da arquitetura e da memória brasileira.
Foto: Arquivo
Por Cassiano Aguilar com informações do Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural