O avanço de iniciativas de incentivo à leitura em Minas Gerais contrasta com um problema estrutural que segue longe de solução no país. Dados do Indicador de Alfabetismo Funcional (Inaf), divulgados em 2025, revelam que cerca de 29% dos brasileiros entre 15 e 64 anos são analfabetos funcionais — ou seja, têm dificuldades para compreender e interpretar textos simples do cotidiano.
É nesse cenário que o projeto Ler é Viver, do Instituto Gil Nogueira, amplia sua atuação no estado. Com duas décadas de atuação, a iniciativa já contabiliza mais de 1,6 milhão de livros lidos por mais de 137 mil alunos, alcançando 101 escolas em 40 municípios mineiros.
Em 2026, o programa passou a atender quatro escolas públicas de ensino fundamental, o dobro do registrado no ano anterior. As novas unidades contempladas são a Escola Estadual Afrânio de Melo Franco, em Belo Horizonte, e a Escola Estadual São João da Escócia, em Santa Luzia. A seleção prioriza instituições que atendem alunos do 1º ao 5º ano, localizadas em áreas de maior vulnerabilidade social e com baixos índices no IDEB (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica).
Apesar da ampliação, especialistas apontam que iniciativas pontuais, embora relevantes, ainda não são suficientes para reverter o quadro nacional. A permanência de altos índices de analfabetismo funcional indica lacunas históricas na alfabetização e na formação de leitores no Brasil.
Segundo Carmen Lima, gerente-geral do Instituto Gil Nogueira, o objetivo do projeto é atuar diretamente na base educacional. “A missão é contribuir para a redução do analfabetismo funcional por meio do incentivo à leitura na infância”, afirma.
Resultados recentes mostram avanços localizados. Em 2025, cerca de 600 alunos participaram do programa em escolas de Conceição do Mato Dentro e Dom Joaquim, com 10.420 livros lidos ao longo do ano. A média foi de 8,4 livros por estudante — número superior à média nacional, estimada em 2,1 livros por pessoa.
A metodologia combina acesso a obras literárias com atividades pedagógicas voltadas à interpretação de texto. A cada semestre, os alunos recebem kits com 30 títulos adequados à faixa etária, além de participarem de oficinas conduzidas por pedagogos e contadores de histórias.
Embora os resultados indiquem impacto positivo nas escolas atendidas, o desafio permanece em escala mais ampla: transformar experiências isoladas em políticas públicas consistentes, capazes de reduzir, de forma estrutural, o analfabetismo funcional no país.
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