Em um ano marcado por Copa do Mundo e eleições, especialistas alertam para a necessidade de foco estratégico, disciplina gerencial e decisões integradas.
A partir de 2026, a Reforma Tributária deixa de ser um debate conceitual e passa a impactar diretamente as decisões práticas das empresas brasileiras. A transição ocorre em um ano especialmente desafiador, marcado por dois eventos que historicamente desviam a atenção coletiva: a Copa do Mundo e as eleições. Nesse cenário, especialistas alertam que a dispersão do ambiente público contrasta com a necessidade de foco, método e disciplina exigida da gestão empresarial.
O contexto econômico reforça a complexidade do momento. O ano começa com a taxa Selic mantida em 15%, elevando o custo do capital e reduzindo a margem para erros estratégicos. Ao mesmo tempo, o IPCA-15 acumulado em 12 meses atinge 4,5%, no teto da meta inflacionária, pressionando consumo, negociações e decisões de investimento. Para as empresas, isso significa atravessar a transição tributária sem “folga gerencial”, em um ambiente sensível a decisões mal calibradas.
Segundo analistas, um dos principais equívocos das organizações é tratar a Reforma Tributária como um tema restrito às áreas fiscal e contábil. Embora o cumprimento das novas regras seja essencial, o impacto mais relevante está na competitividade. A mudança no sistema tributário afeta diretamente a formação de preços, a estrutura de contratos, o relacionamento com clientes e parceiros, além da gestão de rentabilidade e fluxo de caixa.
Em ambientes marcados por ruído político e social, empresas que optam por adiar decisões até que haja maior clareza tendem a enfrentar custos mais elevados. Ajustes tardios, renegociações sob pressão e retrabalho operacional tornam-se comuns justamente quando a previsibilidade e a capacidade de execução deveriam ser preservadas. Na prática, muitas organizações não enfrentam dificuldades na interpretação da legislação, mas na falta de decisões integradas entre áreas como comercial, finanças e operação.
A transição tributária impacta a gestão em ao menos quatro frentes principais. O tempo útil para decisões se encurta, já que a implementação é gradual, porém cumulativa, reduzindo a margem de manobra para 2027. A precificação deixa de ser um simples ajuste de tabela e passa a exigir coerência sistêmica entre descontos, prazos, escopo e cláusulas contratuais. A operação, por sua vez, torna-se menos tolerante a exceções, fluxos paralelos e cadastros frágeis, que passam a gerar custos adicionais. Por fim, a maturidade gerencial se consolida como diferencial competitivo, favorecendo empresas com execução consistente e processos bem estruturados.
Para especialistas em administração, a recomendação é clara: a Reforma Tributária deve ser tratada como uma pauta estratégica de competitividade, e não apenas como uma obrigação de compliance. Quando o tema é conduzido apenas sob a lógica do cumprimento legal, as empresas tendem a reagir de forma tardia. Quando incorporado à agenda executiva, orienta decisões-chave, promove integração entre áreas e reduz o custo do improviso.
A preparação não exige, necessariamente, grandes projetos ou investimentos elevados, mas sim método, sequência correta e disciplina. Entre as principais medidas recomendadas estão o diagnóstico dos impactos no negócio, o planejamento por cenários, a revisão de regras comerciais e de rentabilidade, a atualização de contratos estratégicos, o fortalecimento da governança da alta gestão e o alinhamento entre tecnologia, dados e operação.
Em síntese, a forma como as empresas atravessarem 2026 será decisiva. A Reforma Tributária não será definida apenas nos bastidores técnicos, mas na qualidade das escolhas gerenciais feitas ao longo do processo. Organizações que anteciparem decisões, alinharem áreas e mantiverem uma cadência clara de execução tendem a atravessar a transição com mais previsibilidade — e a sair mais fortes no novo ambiente econômico.
Por Adm. Rogério Parente, coordenador do Grupo de Excelência em Administração Estratégica de Pessoas e Tecnologias (GEAPE Tech) do Conselho Regional de Administração de São Paulo (CRA-SP).
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